O agricultor em tempos de fartura

A grande maioria dos produtores rurais brasileiros está rindo à toa. Assim também estiveram em 2003 até meados de 2004, quando a alegria acabou e só está retornando agora.
A causa desta euforia está nos altos preços dos produtos agrícolas: a soja está valendo o maior preço de sua história, o mesmo acontecendo com o preço do trigo e do milho. A carne de frango e de porco, que nada mais é do que milho e soja transformados, também está batendo recordes de preços altos. O dinheiro da comercialização da produção do campo está enchendo o bolso do feliz agricultor, após três anos de carestia e de xororô.Os vendedores de insumos, máquinas e implementos agrícolas estão igualmente eufóricos, pois receberão mais pelo crescimento das vendas e, melhor, receberão dívidas atrasadas de vendas realizadas no período da carestia (seria prudente que não fossem oportunistas, aproveitando o momento para elevar abusivamente os preços, como já o fizeram no passado). Na verdade, toda a sociedade está-se beneficiando desse bom momento da agropecuária, pois representa mais dinheiro circulando pela economia, o que gera impostos e empregos.Mas, segundo ensina a sabedoria popular: tudo o que sobe, desce. Não foi assim em 2004? Em abril daquele ano o preço da saca de soja ultrapassava os R$ 50,00 e, alguns meses depois, valia menos da metade. Muitos produtores, excitados pela alta inesperada do grão, apostaram em preços ainda maiores: “juro que vendo quando ela chegar a R$ 60,00”, afirmavam os melhores apostadores. Ela não chegou a tanto, mas se chegasse, possivelmente a próxima aposta seria R$ 70,00 ou mais. A ganância não tem limites, o que redunda em aposta em tetos maiores a cada novo recorde de preço. Isto fez com que muitos produtores, em 2004, guardassem sua soja super valorizada e a vendessem, tempos depois, por muito menos. Estamos vivenciando momento semelhante. Será que o produtor aprendeu a lição?Em março de 2005, participamos do Rally da Safra, percorrendo quase 6.000 km pelos estados de Goiás e Mato Grosso. Estávamos no auge da crise da soja: preços baixos e ferrugem comendo solta. Pelo caminho, encontramos muitas áreas abandonadas, mas que haviam sido cultivadas no ano anterior. Estavam abandonadas, não por causa dos baixos preços da soja - porque isso não abala a garra do nosso produtor – mas, simplesmente, porque ele não teve dinheiro e nem crédito para efetuar o plantio, apesar dos excelentes lucros que tivera nos anos anteriores com a comercialização da soja em alta.E o que havia o produtor feito com os lucros dos bons preços das safras anteriores? Certamente os havia comprometido na compra de mais terra, máquinas e veículos, assumindo compromissos futuros impagáveis, na eventualidade de o mercado desabar. E foi o que aconteceu. Na hora de pagar as estratosféricas prestações dos bens adquiridos, o preço da soja havia despencado e o valor da safra não cobriu os valores comprometidos com as prestações. É uma temeridade comprometer hipotéticos ganhos futuros, baseado nos bons preços do momento, que podem não se repetir. É verdadeiro afirmar que não há mal que sempre dure; mas, tampouco, não há bem que nunca acabe. Não considerar a possibilidade de uma frustração de safra ou de uma situação de mercado desfavorável é, no mínimo, irresponsabilidade. Diz o ditado que depois da tempestade vem a bonança. Mas pode, também, acontecer o contrário.Dizem que não se deve dar conselhos a quem não pediu. Como não somos produtores, somos mais do que suspeitos para dar conselhos cujos resultados não nos afetarão. Mas vamos dar assim mesmo, no entendimento de que o produtor, na euforia dos bons resultados da safra, se esqueceu de pedir. É o seguinte: considerando que o mercado oferece inúmeras opções de comercialização da safra, incluindo a venda antecipada com preços pré-fixados, porque não aproveitar esse novo mecanismo de mercado, fixando agora os preços de venda de uma colheita futura, aproveitando momentos de mercado em alta? Alguns produtores mais antenados já utilizam essa estratégia de comercialização e não mais choram em períodos de crise. É o caso de um grande produtor de algodão de Campos de Julio, MT, que nós visitamos em março de 2005. Nessa data, sua produção de 2006 e metade da de 2007, já estava comercializada. Ele havia aproveitado vários momentos de altas especulativas do mercado para vender parte da sua futura produção. Estava ciente de que, muitas vezes, é mais importante utilizar adequadamente as tecnologias de gestão, do que se valer de modernas técnicas de produção: vender bem pode render mais dividendos do que produzir bem. Outro exemplo de produtor rural moderno nós encontramos em Lucas do Rio Verde, MT. Em plena safra de 2005, enquanto muitos colegas produtores estavam às voltas com pedidos desesperados por crédito nos bancos e nos fornecedores de insumos, para salvar a colheita do mais devastador ataque da ferrugem asiática, ele socorria com sobras de insumos adquiridos antecipadamente - à vista e com substanciais descontos - produtores sem dinheiro e sem crédito, os quais comprometiam boa parte da futura safra para não perder tudo. Ele estava tranqüilo e dono da situação, como resultado das economias guardadas no período das vacas gordas. Era dono da safra que colheria, vendendo-a quando e a quem quisesse. As oportunidades oferecidas pelo mercado foram idênticas; diferente foi o manejo que um e outros deram ao dinheiro ganho nos tempos da fartura. A atitude mais exercida pelos produtores quando lhes sobra dinheiro de uma boa safra, é adquirir mais terra; quase sempre no pico de sua valorização, para, muitas vezes, revendê-la na baixa, pouco tempo depois, entregando os dedos para não perder a mão. A propósito, senhor produtor, porque, ao invés de comprar mais terra, você não investe em mais tecnologia, buscando maior produtividade na terra que já é sua e colhendo, como resultado, o mesmo, mas numa área menor?! Seria uma opção racional e inteligente, desde que não se confunda o uso de alta tecnologia com a aplicação exagerada de fertilizantes e/ou de pesticidas. Alta tecnologia não significa o uso de grandes quantidades de insumos agrícolas, mas, sim, seu uso racional. Uso excessivo pode reduzir e não incrementar a produtividade, pelos potenciais efeitos tóxicos e pelo desequilíbrio nutricional que promove. O desenvolvimento das plantas obedece a uma lei da natureza, conhecida como a Lei do Mínimo, que ensina: a produtividade de um cultivo é determinada, não pela quantidade de nutrientes que disponibilizamos à planta, mas pelo nutriente indispensável e disponibilizado em menor quantidade. Se o nutriente necessário e disponível em menor quantidade no solo da sua propriedade é o enxofre, não resolve adicionar mais N, P ou K. Será a falta de enxofre que determinará o nível da produtividade. Produtor, a história se repete, só não sabemos com que freqüência. Se bem que há uma perspectiva bastante sólida de manutenção dos atuais bons preços por um longo período ainda, de vez que as causas que determinaram os atuais altos preços são muito diferentes dos de 2003/4 (desequilíbrios na oferta/demanda vs frustração de safras), seria bom não confiar demasiadamente na bola de cristal dos analistas de mercado, porque eles nunca erram: se o mercado cair e eles previram a queda, são gênios; se acontecer o contrário, terá sido porque eles advertiram e medidas corretivas foram tomadas com:
Amélio Dall’Agnol - Eng. Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Fernando Adegas - Eng. Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.

Fonte: Embrapa Soja - 26/02/08

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